The Strokes e o renascimento do rock de garagem: 25 anos de Is This It (2001)
Em 2001, na virada do milênio, o cenário das guitarras nas rádios comerciais era dominado pela agressividade pesada do nu-metal e pelo desgaste de um "rock de tiozão" (dad-rock). No meio dessa ressaca criativa da indústria fonográfica, quatro norte-americanos e um brasileiro, estudantes da nata das escolas particulares da época (Julian Casablancas, Albert Hammond Jr., Nick Valensi, Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti), dividiam empregos de meio período no ano 2000 com ensaios noturnos incessantes em um pequeno espaço alugado em Manhattan. Depois que uma fita demo chamou a atenção de Ryan Gentles, agenciador de talentos que abandonou o emprego para empresariar o quinteto, o grupo gravou três faixas ("The Modern Age", "Last Nite" e "Barely Legal") com o apoio do mentor JP Bowersock e do produtor Gordon Raphael. Lançado em janeiro de 2001 pelo selo britânico Rough Trade, o EP The Modern Age provocou uma guerra entre gravadoras pelo grupo, findando na contratação pela RCA Records e na gestação do álbum de estreia que redefiniu a música alternativa do século XXI: Is This It.
Fugindo dos polimentos radiofônicos exigidos pelas gravadoras, o trabalho promoveu um redirecionamento estético radical ao rejeitar os efeitos pesados de estúdio em favor da "eficiência bruta". Após descartarem sessões iniciais na Inglaterra com um renomado produtor famoso por discos do Pixies e Foo Fighters, Julian e seus companheiros insistiram em gravar no Transporterraum, um minúsculo estúdio subterrâneo de Gordon Raphael localizado em Manhattan, a área dos Strokes. Sob risco de despejo e desconfiança da RCA, Julian Casablancas idealizou o som como o de "um grupo do passado viajando no tempo". Usando até 11 faixas no software de gravação e sem truques de pós-produção, Raphael captou a bateria de Fabrizio Moretti com apenas três microfones, posicionou os amplificadores de Albert Hammond Jr. e Nick Valensi em lados opostos da sala e gravou os vocais de Casablancas num pequeno amplificador Peavey, deixando com aquela textura lo-fi e com aquele drive marcante. O resultado foi uma sonoridade granulada e comprimida, mas ao mesmo tempo elegante e intimista.
Em vez de conceber uma narrativa conceitual amarrada do início ao fim, o quinteto estruturou o repertório como um apanhado de retratos independentes da juventude urbana, alinhando onze faixas precisas que preservam identidades singulares sem cair em repetição. Liricamente, Julian Casablancas assume o papel de cronista do tédio noturno e das desilusões afetivas no cenário nova-iorquino. Essa aura ganha forma na faixa-título de abertura, "Is This It", balada soturna amparada por linhas melódicas do baixo de Nikolai e a batida de bateria precisa do Fab.
O destaque instrumental vem da sintonia entre Nick Valensi e Albert Hammond Jr., unindo os grooves do The Smiths à precisão do Joy Division. Em seus momentos mais densos e provocativos, "Soma" dialoga com o romance distópico Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, empregando ritmos bruscos para retratar a apatia e o uso de substâncias como muleta de aceitação social entre a elite contemporânea.
Longe das garagens nova-iorquinas, o LP atinge um dinamismo que equilibra a fricção pós-punk com ganchos pop. "Last Nite" mescla influências da Motown com o ritmo do reggae e acaba criando um hino instantâneo que faz qualquer um se mexer, ao passo que "Someday" resgata uma cadência rockabilly, um subgênero de rock que mistura country com R&B. Em "Hard to Explain", a bateria acústica sofreu compressões para soar como um sintetizador eletrônico, servindo de base para as guitarras de Nick Valensi e os vocais roucos e gritados de Julian. Na reta final, a melancolia intimista de "Trying Your Luck" prepara o terreno para a explosão de "Take It or Leave It", fechando o disco com a energia lá em cima.
O lançamento escalonado da obra a partir de 30 de julho de 2001 esbarrou no conservadorismo varejista e em uma tragédia nos Estados Unidos. A icônica fotografia da capa original assinada por Colin Lane, que apresentava uma composição estética ousada com uma luva de couro preta e as curvas de uma pessoa nua, foi substituída na edição norte-americana pela imagem psicodélica de partículas subatômicas em uma câmara de bolhas. Além disso, os ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center adiaram a chegada do disco às lojas dos EUA para 9 de outubro e levaram o grupo a remover do CD a irreverente "New York City Cops", pois o refrão ironizava a inteligência da polícia local ("New York City cops, they ain't too smart"), em respeito à bravura dos bombeiros e policiais nos resgates, sendo substituída pela inédita "When It Started", presente também na trilha sonora do filme Spider-Man (2001).
Apesar disso, a estreia dos Strokes aparece em 1º lugar em diversas listas de melhores álbuns da década de 2000. Is This It aposentou a masculinidade pesada do fim dos anos 90 e abriu as portas para a explosão de bandas como Arctic Monkeys, Franz Ferdinand e The Libertines. Passado um quarto de século desde sua estreia, a vitalidade dos nova-iorquinos permanece em evidência em 2026: após conquistarem o Grammy com The New Abnormal e lançarem em julho deste ano seu sétimo álbum de estúdio, Reality Awaits (2026), os Strokes preparam seu retorno ao Brasil como atração principal do Primavera Sound São Paulo em dezembro, reafirmando seu engajamento político nas redes sociais em defesa da democracia latino-americana e provando que ainda carregam consigo a urgência daquelas onze canções feitas pelos jovens dos anos 2000. E, assim como Alex Turner, do Arctic Monkeys, "I just wanted to be one of The Strokes".
O disco Is This It está disponível no catálogo da Hifive Discos.
Ouça: "Hard to Explain", "Last Nite", "Someday", "The Modern Age" e "When It Started".
Para quem gosta de: The Velvet Underground, Television, Arctic Monkeys, The Libertines.
Texto por João Gabriel Coelho.