Nara Leão e a sutileza subversiva de Nara (1967) 

 

Lançado no calor das tensões de 1967, o segundo disco homônimo de Nara Leão representa um divisor de águas na carreira da cantora. Reconhecida desde o fim dos anos 1950 como a musa inaugural da bossa nova (fruto dos encontros no berço do movimento, um apartamento em Copacabana que pertencia à família dela), Nara rompeu cedo com a estética do movimento por se enxergar alienada diante dos problemas do país. A artista aproximou-se do samba tradicional e assumiu a linha de frente da canção de protesto no espetáculo Opinião (1964), enfrentando a censura militar antes de conquistar o grande público com "A Banda" no festival de 1966. Em 1967, sob a pressão do regime autoritário e o desgaste da superexposição, sua vida pessoal passou por transformações com o casamento com o cineasta Cacá Diegues. Foi dessa busca por autonomia e liberdade que o álbum nasceu: usando a delicadeza como forma de resistência. 

 

Em busca de uma transformação criativa, o trabalho promove um redirecionamento estético ao agregar o pop barroco a sofisticados arranjos eruditos. Sob a produção de Aloysio de Oliveira na Philips e com os arranjos de Oscar Castro Neves, o registro substitui a exuberância por um instrumental contido, guiado por violões nítidos e um piano suave. A capa traz um contraste: embora seja sóbria e escura, o vinil revela uma sonoridade calorosa, conduzida por canções curtas que evocam a leveza do verão. Essa atmosfera se estabelece já na abertura com "Tic-Taque do Meu Coração", clássico de Alcyr Pires Vermelho e Walfrido Silva, famoso na voz de Carmen Miranda. Ao tirar os excessos da marchinha, Nara usa sua interpretação contida para desacelerar o andamento frenético da versão mais famosa da canção, desmontando o trava-línguas propagado pela figura que cantava com um cacho de bananas na cabeça para vender um Brasil exótico ao exterior e jogando luz sobre a poesia presente na música. 

 

O momento mais marcante do repertório é "Por Exemplo, Você", parceria de Sueli Costa e João Medeiros Filho que marca a estreia da compositora mineira em gravações. Sueli era uma jovem estudante que descobriu a gravação pelas páginas do jornal Correio da Manhã, depois que Oscar Castro Neves apresentou a fita com a harmonia e Nara decidiu registrar a faixa. Nas linhas que recusam a conformação com o sofrimento ("E o meu caminho é certo / Vem de peito aberto / Enfrentando tudo que chegar"), a entrega de Nara ganha uma sobriedade firme com um gesto sutil de coragem em um momento no qual o país fechava suas portas para a liberdade de expressão. 

 

A densidade do trabalho é equilibrada por faixas mais solares e de cadência carnavalesca. Esse dinamismo aparece em "Camisa Amarela", samba de Ary Barroso em que a cantora narra a ressaca da Quarta-Feira de Cinzas com ironia, e no tom descontraído de "Lancha Nova", de Braguinha e Antônio Almeida. O disco mantém o ritmo com o humor de "Cabra Macho", de Guto e Mariozinho Rocha, e ganha uma vibe praiana no dueto com Edu Lobo em "De Onde Vens?", de Dori Caymmi e Nelson Motta, preparando o terreno para a despedida melancólica em "Soneto de Separação", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. 

 

Mesmo provocando um estranhamento inicial entre aqueles que cobravam um posicionamento mais explícito, Nara (1967) deixou sua marca ao se estabelecer como uma peça fundamental na modernização da MPB. O trabalho antecipou caminhos que desaguariam na Tropicália no ano seguinte, movimento que contou com a colaboração da própria cantora ao registrar "Lindoneia", parceria de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Contudo, o combate ao regime militar cobrou um preço alto: encurralada pela censura, a artista partiu para o exílio na França no encerramento daquela década. Mais tarde, encarou com coragem e uma produção incessante a batalha contra um tumor cerebral inoperável até sua morte, em 1989. O tempo se encarregou de fazer justiça ao seu legado, passando pela reedição de sua obra fonográfica em CD em 2002 e pelas homenagens de nomes como Fernanda Takai, que ajudaram a renovar sua arte, até culminar no lançamento da série documental O Canto Livre de Nara Leão (2022), reafirmando sua importância central para o cancioneiro nacional e a liberdade de expressão. 

 

O disco Nara (1967) está disponível no catálogo da Hifive Discos. 

 

Ouça: "Tic-Taque do Meu Coração", "Por Exemplo, Você", "Camisa Amarela" e "No Cordão da Saideira". 

 

Para quem gosta de: Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina. 

 

Texto de: João Gabriel Coelho.