Madonna e o Renascimento Clubber: Confessions II (2026)
Consagrada desde a década de 1980 como a arquiteta do pop moderno, Madonna atravessou os últimos anos sob fortes comentários etaristas da indústria fonográfica, que insiste em debater sua aparência, suas redes sociais e sua relevância em vez de sua música. Lançado em 3 de julho de 2026 e marcando seu retorno histórico à Warner Records após duas décadas, Confessions II nasceu de um caldeirão de provações pessoais e profissionais. Depois de sobreviver a uma grave infecção bacteriana que a levou a uma experiência de quase morte em 2023, de ver sua cinebiografia na Universal Pictures ser engavetada por cortes de orçamento e de enfrentar atrasos na série para a Netflix, a cantora ainda precisou lidar com o luto duplo pelas mortes do irmão, Christopher Ciccone, e da madrasta, Joan Ciccone, no final de 2024. Diante de um cenário sociopolítico global sombrio e do próprio trauma familiar, Madonna trocou Nova York pelo estúdio de Stuart Price em Maida Vale, Londres, retomando a parceria com o produtor de Confessions on a Dance Floor (2005).
Longe dos apagados trabalhos anteriores em que parecia perseguir modismos alheios para agradar a algoritmos, o projeto recupera o formato de mixagem contínua como um set de DJ, ignorando a tendência de fazer um disco com faixas isoladas e descartáveis de dois minutos exigidas pela era do streaming. Sob a batuta executiva de Madonna e Stuart Price (teclados, baixo, violão, programação de bateria e arranjos de cordas ao lado de vários colaboradores), o registro mergulha de cabeça na cultura clubber vintage e contemporânea. Inspirada pelo techno de Detroit e pelo house de Chicago, a sonoridade costura dance-pop, synth-pop, deep house, acid house, electroclash, french house, UK garage, drum and bass e breakbeats. O disco abre com "I Feel So Free", uma fusão de pós-disco e deep house coproduzida pela Arca que resgata o sample da seminal "French Kiss" (1989). Nessa faixa, o eu lírico confessa a dificuldade de confiar nas pessoas e decreta que a única liberdade verdadeira está no anonimato de uma pista lotada.
Menção honrosa para a faixa "Bring Your Love", que conta com a participação de Sabrina Carpenter e promove o encontro de duas cantoras pop em momentos totalmente diferentes da carreira. Usando como base a canção "Good Life" (1988), do grupo Inner City, as duas ironizam o patrulhamento sobre suas personas públicas e a obsessão da indústria por métricas de streaming. O começo do disco passa de forma sutil e bem clubber, ganhando verdadeira tração na reta final quando chegamos ao exorcismo católico de "My Sins Are My Savior", um hip house de clima noir cantado em francês por Stromae que ataca o moralismo religioso. Apesar da estética densa e melancólica que domina o desfecho, o disco esbanja o espírito de uma celebração hedonista. Olhando pelo retrovisor sem ficar presa ao passado, Madonna reconstrói a efervescência underground da Nova York do início dos anos 1980 em "Danceteria", faixa que funde disco, electroclash e french house sobre a incidental do refrão de "Walk on the Wild Side" (1972), de Lou Reed, resgatando a cadência falada de "Vogue" para homenagear o clube que a revelou ao mundo. Já "Love Sensation" entrega pura euforia seguindo uma linha à la Daft Punk, enquanto "Read My Lips" é a canção mais latina do disco, outro aceno comercial de Madonna para demarcar espaço no Sul Global.
Amparado pela direção visual do fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti — que apresenta a cantora como uma entidade sacra de véu rosa e renda lilás sobre caixas de som —, pelo curta-metragem surrealista dirigido pela dupla TORSO e pela série de apresentações secretas Club Confessions em boates de Londres, Paris, Nova York, West Hollywood e Amsterdã, Confessions II consolidou um triunfo absoluto de público e crítica. Aclamado por veículos como The Guardian, NME, Rolling Stone e Pitchfork como seu trabalho mais vital e coeso em duas décadas, o álbum estreou no topo das paradas de dezesseis países, garantindo a Madonna seu décimo número 1 na Billboard 200 (com 134 mil unidades e o recorde de sua maior semana de vendas em vinil desde 1991) e seu décimo terceiro topo no Reino Unido, igualando a marca histórica de Elvis Presley e tornando-a a primeira mulher estadunidense a liderar o ranking britânico em cinco décadas distintas. Com esse lançamento, Madonna venceu uma verdadeira batalha contra o preconceito etário: Confessions II recolocou a veterana na programação principal da BBC Radio 1 e na liderança das rádios da Billboard pela primeira vez em dezoito anos, rendeu um recorde pessoal de onze indicações ao MTV Video Music Awards de 2026 e levou a artista ao primeiro show de intervalo da história da final da Copa do Mundo da FIFA.
O disco Confessions II está disponível no catálogo da Hifive Discos.
Ouça: "Read My Lips", "Fragile", "Danceteria" e "Bring Your Love"
Para quem gosta de: Pet Shop Boys, Donna Summer, Daft Punk.
Texto por João Gabriel Coelho.