Elis Regina e a viagem interrompida em Trem Azul (1982)
Consagrada nos Festivais da Canção e no comando do programa O Fino da Bossa nos anos 1960, Elis Regina teve uma trajetória marcada por contradições e embates intensos: chegou a ser patrulhada e acusada de ceder à ditadura militar após cantar sob pressão nas Olimpíadas do Exército em 1972, antes de se consolidar na linha de frente contra o regime. Em espetáculos abertamente políticos como Falso Brilhante (1975), Transversal do Tempo (1978) e Saudade do Brasil (1980), a cantora gaúcha usou o palco como campo de batalha pela reabertura democrática, enfrentando a censura e o peso constante de atuar como estandarte ideológico de um país sufocado pelo regime. No encerramento da temporada em outubro de 1981, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, Elis demonstrava claros sinais de abatimento ao subir ao palco. Aos 36 anos, acumulava a exaustão com sua imagem pública, o rompimento doloroso do casamento e da parceria de quase uma década com o pianista César Camargo Mariano, trocas turbulentas de gravadoras e a entrada da droga em sua rotina poucos meses antes. Na plateia, Caetano Veloso, Gal Costa, Roberto Menescal e outros artistas presentes comentavam que a cantora não parecia estar bem. Sem distinguir o palco da própria vida, Elis sentia-se frágil e insegura em ambos. A busca por caminhos para suportar esse contexto culminaria no final precoce de sua jornada três meses depois, deixando registrado em Trem Azul (1982) um show ao vivo urgente, elétrico, tenso e bem-humorado (um resumo perfeito de toda a sua personalidade).
Ao ensaiar uma virada estética que a artista não teria tempo de concluir em estúdio, o espetáculo(com roteiro baseado no álbum Elis (1980), direção geral de Fernando Faro e cenografia e capa de Elifas Andreato) mostra a intérprete mais solta, menos carregada e livre das performances classudas das intérpretes de MPB. Deixando definitivamente para trás o purismo nacionalista que a levou a liderar a passeata contra a guitarra elétrica em 1967, e pela primeira vez desde 1972 sem a presença e a parceria de César Camargo Mariano no palco, Elis entregou a direção musical justamente ao guitarrista Natan Marques, que dividiu a assinatura dos arranjos com Mariano e injetou peso oitentista à banda. O som apoia-se nas guitarras de Natan, no baixo elétrico de Luizão Maia, na bateria de Picolé, nos teclados de Paulo Esteves com Sérgio Henriques, nos sopros de Nilton Rodrigues (trompete) e Otávio Bangla (saxofone tenor), misturando MPB, pop, rock, soul e bolero sem deixar suas convicções poéticas de lado. Essa mudança de rota fica evidente logo na abertura: após declamar o texto introdutório de Fernando Faro ("Agora eu sou uma estrela"), Elis engata "Aprendendo a Jogar", de Guilherme Arantes. Com ataque silábico agressivo (“Já dizia Elis: Dig dig dig dig dig da cá”), mudanças bruscas de andamento e divisões rítmicas semelhantes ao som sujo das gafieiras e dos clubes de jazz, a faixa mescla mais uma vez vida pessoal e arte e prepara o ambiente do álbum ao converter a ressaca do fim de um relacionamento em um manifesto de sobrevivência, sem que se possa definir se o alvo de Elis era a ditadura ou César Camargo.
Um dos pontos altos do álbum acontece em "Se Eu Quiser Falar Com Deus", composição de Gilberto Gil que abre o Lado B em uma execução de mais de sete minutos e meio. Encomendada originalmente por Roberto Carlos em 1980, a canção foi recusada pelo cantor da Jovem Guarda, que se sentiu ofendido com o teor amargo e contestador de uma letra que questionava abertamente a devoção dos fiéis e os dogmas cristãos. Logo após a negativa de Roberto, Elis conheceu a música, pediu para cantá-la e a lançou em um compacto simples ao lado de "O Trem Azul", já que a gravação acabou excluída na última hora do álbum Elis (1980) porque o próprio Gil pretendia registrá-la em seu disco seguinte. Na voz da cantora, o eu lírico desmonta a hipocrisia da aparência religiosa e exige o esvaziamento absoluto em versos indigestos como "Tenho que calar a voz / Tenho que perder a conta / Tenho que ter mãos vazias / Ter a alma e o corpo nus". Sem concessões fáceis, a interpretação de Elis expõe os conflitos existenciais e a solidão de uma mulher que encarava o próprio abismo de frente.
Apesar da estética densa que marca os números mais dramáticos, o disco mostra versatilidade ao quebrar a tensão com faixas mais pop, engraçadinhas e leves. Olhando para autores considerados mais pop à época, Elis mergulha na letra de Rita Lee e Roberto de Carvalho em "Alô! Alô! Marciano" e retoma a dupla no pot-pourri do Lado C, onde costura músicas até então inéditas em sua voz: "Baila Comigo", "Lança Perfume", "Menino do Rio" (de Caetano Veloso, cantada em tom de puro deboche, imitando e carregando propositalmente o sotaque carioca), "Começar de Novo" (Ivan Lins e Vitor Martins) e "Amante à Moda Antiga" (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), intercaladas com os temas de Fantástico, Os Trapalhões e Jornal Nacional ("The Fuzz"), numa ironia direta à sua recém-assinada entrada na gravadora da Rede Globo. A amplitude do repertório ainda acomoda o lirismo mineiro da faixa-título "O Trem Azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos), de "O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre" (Beto Guedes e Fernando Brant) e de "Vento de Maio" (Telo e Márcio Borges), o compasso de valsa em "Valsa de Eurídice" (Vinicius de Moraes) e o bolero "Me Deixas Louca" (Armando Manzanero em versão de Paulo Coelho), antes de retomar o peso político no Lado D com a sequência de Milton Nascimento e Fernando Brant em "O Que Foi Feito Devera (De Vera)", "Caxangá" e "Maria, Maria".
A inesperada saída de cena de Elis Regina em 19 de janeiro de 1982, partindo tão cedo, motivou imediatas edições póstumas para faturar com a saudade do Brasil. Enquanto a Warner Music editava às pressas o álbum Montreux Jazz Festival (gravado em 1979 e lançado contra a vontade da cantora, que anos antes tinha feito o executivo André Midani lhe garantir que aquela gravação ao vivo jamais sairia em disco), a Som Livre esbarrava na falta de material inédito: contratada poucos meses antes de morrer, Elis havia deixado registrada em estúdio apenas a faixa "Me Deixas Louca" para a trilha da novela Brilhante. Não havia qualquer projeto para que o show do Anhembi se tornasse um lançamento comercial, mas o técnico de som Rogério Costa, irmão da cantora, costumava gravar alguns espetáculos direto da mesa de som de forma precária, em fitas cassete mono de baixa qualidade, apenas para audição caseira. Após a morte da irmã, Rogério procurou a Som Livre com a fita bruta e, dividindo a produção com Max Pierre, submeteu o registro a uma série de processos de purificação e tratamento acústico para originar o álbum duplo em estéreo. Lançado sob o impacto do luto coletivo, esse clássico cult vendeu mais de 120 mil cópias, rendeu um Disco de Ouro e recebeu prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) pelo tratamento técnico dado à gravação original. Ao preservar esses registros, Rogério presenteou fãs e admiradores com o testemunho do ato final da maior intérprete da música brasileira.
O disco Trem Azul está disponível no catálogo da Hifive Discos.
Ouça: “Aprendendo a Jogar”, “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, “O Trem Azul” e “Me Deixas Louca”.
Para quem gosta de: Milton Nascimento, Gal Costa, Rita Lee.
Texto por João Gabriel Coelho.