David Bowie e a Paranoia Urbana: Scary Monsters (and Super Creeps) (1980)
Em 1980, David Bowie fechou a década de 70 com um trabalho reativo, passional e genial. Movido pela vaidade e impulsionado pela ascensão do synthpop e da new wave (liderada por figuras como Gary Numan, que rivalizava em popularidade com ele), o camaleão vivia o impasse de um artista maduro buscando reafirmar sua soberania. Lançado na esteira do aclamado encerramento da Trilogia de Berlim (1977-1979), desenvolvida ao lado de Brian Eno em álbuns experimentais e vanguardistas como “Low”, "Heroes" e “Lodger”, o décimo quarto álbum de estúdio do músico atua como o 'elo perdido' entre o minimalismo de vanguarda berlinense e a fase pop global e ultracomercial que viria a se consolidar em “Let's Dance” (1983).
Longe do laboratório de Brian Eno (famoso por ditar rumos da gravação com seu famoso baralho Oblique Strategies), Bowie trocou o experimentalismo aleatório por ensaios rigorosos, resultando em faixas mais firmes e estruturadas. Conduzida pela produção precisa do parceiro de longa data Tony Visconti, a formação adotou uma postura roqueira incontestável. Sustentada pela cozinha de George Murray no baixo e Dennis Davis na bateria, a instrumentação do disco é cortada de ponta a ponta pelas guitarras de Robert Fripp, o líder do King Crimson. Logo na faixa de abertura, "It's No Game (No. 1)", a canção estabelece um clima frenético com a declamação dramática em japonês por Michi Hirota e com o vocal histérico de Bowie.
O disco evita fórmulas nostálgicas para retratar de forma direta a ansiedade, a vigilância e o desgaste da vida urbana contemporânea. Ao descrever uma realidade povoada por manequins alienados e tendências passageiras, Bowie construiu uma crônica cínica sobre a futilidade e as angústias da cultura contemporânea. Essa abordagem fica evidente na própria faixa-título, "Scary Monsters (and Super Creeps)", em que versos como "She opened strange doors that we'd never close again" dão o gostinho dessa atmosfera sufocante de paranoia e pesadelo urbano.
Mesmo imerso em uma atmosfera pesada e paranoica, o LP demonstra equilíbrio ao dosar a temática densa com ganchos mais comerciais. "Ashes to Ashes" ameniza o tom de melancolia através de um funk cadenciado, decorado pelos sintetizadores de guitarra de Chuck Hammer, no qual Bowie retrata o melancólico destino do Major Tom como um astronauta entregue ao vício. Já "Fashion" domina as pistas pelo ritmo robótico/militar enquanto tece uma crítica ácida ao cinismo da indústria da moda e à submissão alienada da sociedade que segue cegamente tendências e padrões difíceis de serem alcançados.
A dimensão política do álbum alcança sua máxima tensão em "Scream Like a Baby". Desprovido de qualquer ironia, Bowie aborda o autoritarismo, a censura e a opressão estatal em uma narrativa crua sobre repressão e cárcere. A perseguição contra a comunidade LGBTQ+ transparece sem rodeios nos versos "Well, they came down hard on the faggots / And they came down hard on the street". Entre relatos de isolamento, internações e dopagem em manicômios, o arranjo pós-punk recorre a distorções e vozes manipuladas em fita para traduzir o colapso psíquico provocado pela intolerância.
Amparado pela campanha provocadora da RCA, que estampava em cartazes o lema "Often Copied, Never Equalled" ("Muito Copiado, Nunca Igualado") para alfinetar os imitadores da new wave (um abraço com um pouco de veneno para Gary Numan, The Human League, Ultravox e Joy Division), o disco foi um triunfo imediato. “Scary Monsters” levou Bowie de volta ao topo das paradas britânicas pela primeira vez desde 1974 e restaurou seu apelo comercial nos Estados Unidos. Visto pela crítica como o último grande disco de sua fase setentista, o trabalho cravou um padrão de excelência tão alto que virou o parâmetro definitivo para medir tudo o que o artista lançaria nas décadas seguintes.
O disco Scary Monsters (and Super Creeps) está disponível no catálogo da Hifive Discos.
Ouça: “Ashes to Ashes”, “Scream Like a Baby”, “It's No Game (No. 1)” e “Fashion”.
Para quem gosta de: Gary Numan, King Crimson, Talking Heads.
Texto por João Gabriel Coelho.