Barão Vermelho e os 30 anos de Álbum: um resgate boêmio
Em 1996, o Barão Vermelho, um dos grandes nomes do rock brasileiro dos anos 1980, lançou seu nono disco de estúdio, intitulado Álbum. Meados dos anos 1990 representaram um momento de provação para os dinossauros do BRock, que lutavam para não soar datados, domesticados ou engolidos pela própria caricatura, precisando dividir espaço com a efervescência do manguebeat e a ascensão do pop rock radiofônico. O cenário histórico e cultural do Brasil em meados daquela década era marcado por uma ressaca profunda: a euforia da redemocratização e o idealismo que embalaram os primeiros anos do rock nacional haviam colidido com a hiperinflação, o confisco do Plano Collor, o impeachment e a desigualdade social. O rock, que antes serviu como megafone de uma juventude oprimida pela ditadura militar, agora enfrentava a difícil tarefa de amadurecer e encontrar um novo lugar de fala.
Sobreviventes de perdas irreparáveis e já consagrados na linha de frente da música brasileira, Roberto Frejat e seus comparsas vinham do peso do hard rock de Carne Crua (1994) em busca de um respiro criativo. Foi da necessidade de recalcular a rota sem perder a essência que nasceu Álbum (1996). A banda estava no terceiro disco do contrato com a Warner e sentia-se frustrada porque, nos trabalhos anteriores, a gravadora não investia na divulgação de todo o repertório, focando apenas em poucas músicas de trabalho. Para não "gastar" suas composições inéditas em um projeto sem o suporte adequado, optaram por fazer um disco de intérpretes, com receio de que um eventual fracasso minasse o investimento da gravadora em trabalhos futuros.
Longe de ser um exercício de nostalgia preguiçosa, o trabalho marcou uma virada estética na trajetória do Barão, que abandonou momentaneamente as guitarras rasgadas em favor de uma sonoridade mais quente, orgânica e recheada de metais e teclados vintage. Composto em sua maioria por releituras, o projeto é uma carta de amor à boemia, mergulhando na memória afetiva da banda para traduzir o cancioneiro marginal, o samba e a Jovem Guarda para a cartilha do rock and roll. A captação no estúdio Nas Nuvens, conduzida por Márcio Gama e pelo produtor Ezequiel Neves, injetou suingue no grupo e contou com a participação de Serginho Trombone e Zé Carlos Bigorna no sax tenor. Essa sinergia fica evidente na faixa de abertura, "Só Pra Variar", pérola anárquica de Raul Seixas. Sustentada pelas linhas de guitarra de Fernando Magalhães e pelo órgão Hammond de Maurício Barros, a canção prepara o terreno com sarcasmo libertador, escancarando que o Barão estava ali para subverter influências que iam da new wave da Gang 90 ("Perdidos na Selva") à crônica urbana de Luiz Melodia ("Vale Quanto Pesa").
Composta por Cazuza e Frejat em 1985, "Só As Mães São Felizes" carregava o peso de ter sido silenciada pela Censura Federal no disco solo do poeta, Exagerado (1985). A canção foi vetada por expor as feridas de uma sociedade moralista, narrando a realidade da prostituição e o desespero existencial. Mais de uma década depois, o Barão Vermelho resgatou a faixa, operando uma reparação histórica e prestando um tributo à memória de seu membro fundador.
Apesar da densidade de algumas passagens, o álbum exibe canções mais solares e de grande apelo pop, como "Amor, Meu Grande Amor". A balada acústica nascida da parceria entre Angela Ro Ro e Ana Terra ganhou uma releitura elegante (com um toque Queen) que invadiu as rádios de todo o país e integrou a trilha sonora de uma novela das seis da Globo. Em outro extremo desse dinamismo, a banda promoveu um encontro entre o rock e o samba em "Malandragem Dá Um Tempo", injetando R&B e guitarras pesadas no clássico de Bezerra da Silva sobre a vigilância policial e o cotidiano das periferias. Com essa bagagem rítmica apurada e uma curadoria irretocável do cancioneiro nacional, o álbum foi um sucesso absoluto de público e crítica, garantindo ao grupo o seu primeiro Disco de Platina ao ultrapassar a marca de 280 mil cópias vendidas. Além do impacto mercadológico, a obra colocou a banda na vanguarda tecnológica da época ao ser um dos primeiros lançamentos a conter uma faixa interativa em CD-ROM, reafirmando a sede criativa do Barão Vermelho dentro da música brasileira e pavimentando o caminho para a fase eletrônica que estava por vir em Puro Êxtase (1998).
Passadas três décadas de seu lançamento, a relevância e o frescor de Álbum finalmente ganharam a devida justiça histórica. No ano de 2026, o trabalho recebeu um relançamento especial e limitado assinado pelo clube de assinaturas Três Selos Rocinante. A edição em vinil resgatou o projeto gráfico idealizado por Felipe Taborda e veio acompanhada de capa dupla, pôster e encarte enriquecido por um texto inédito do pesquisador Bento Araujo. Ao canibalizar influências em 1996, o grupo provou que sempre soube usar de boas sacadas para contornar momentos adversos.
O disco Álbum está disponível no catálogo da Hifive Discos.
Ouça: “Jardins da Babilônia”, “Malandragem Dá Um Tempo”, “Só As Mães São Felizes” e “Amor, Meu Grande Amor”.
Para quem gosta de: Cazuza, Rita Lee, Titãs.
Texto por João Gabriel Coelho.