Angel Olsen e o peso de viver de aparências: All Mirrors (2019) 

 

Em 2019, Angel Olsen, uma das grandes artistas da geração do indie rock da década de 2010, lançou seu quarto disco de estúdio, o All Mirrors. Fruto de relacionamentos amorosos intensos que culminaram em términos dolorosos, do distanciamento de amizades e do esgotamento com a própria imagem pública, o álbum reflete um período profundamente melancólico, isolado e de transição da artista, que fica visível em suas letras existenciais e na atmosfera musical épica. 

 

Em All Mirrors, Angel deixa de lado a sonoridade bedroom pop e folk tradicional que marcaram seus trabalhos anteriores e adiciona elementos imensamente mais ricos às composições. A artista adota uma identidade musical muito grandiosa e cinematográfica, incluindo múltiplas camadas de instrumentos e o suporte de uma orquestra completa de 14 músicos. Com essa instrumentação, ela canta sobre amor, ilusão, raiva e a fragilidade das relações. A faixa de abertura, "Lark", prepara o terreno abordando expectativas e frustrações de um relacionamento recém-encerrado junto a um arranjo orquestral com sobreposições densas de sintetizadores que provocam uma atmosfera dramática típica das trilhas sonoras do cinema de suspense e das clássicas obras de ficção científica. Esse tema continua em "All Mirrors", a faixa-título na qual Angel reflete sobre a futilidade da beleza física e as identidades moldadas para agradar parceiros.  

 

Outra música que vale a pena destacar é "Chance", valsa melancólica que encerra a obra. A faixa explora a efemeridade das promessas de amor eterno e o peso de encenar identidades desalinhadas com a própria essência. Mais tarde, ao se assumir lésbica, a compositora revelou que o sofrimento impresso nas faixas derivava do sufocamento de sua sexualidade sob convenções heteronormativas. Sobre essa libertação afetiva, ela já expressou em entrevistas o espanto e a descoberta de finalmente vivenciar um sentimento genuíno. Ancorada em uma instrumentação grandiosa com traços de ópera, a cantora declara que prioriza a veracidade de um momento fugaz em vez da ilusão de uma vida inteira forjada por aparências. 

 

"Why don't you say you're with me now, with all of your heart?"  

 

Apesar da estética densa, noir e dramática, All Mirrors emplacou canções mais solares com apelo pop, como "Spring", que contrasta tambores e sintetizadores espaciais com uma letra reflexiva sobre o envelhecimento, a perda de paixão e a passagem do tempo, e "Summer", uma balada bem classic rock das planícies norte-americanas, decretando que o pior da tempestade já passou.  

 

Com uma bagagem lírica rica e uma aposta nos grupos de cordas modernos, o álbum foi um sucesso absoluto de público e crítica, marcando presença constantemente no topo das listas de melhores discos do ano e garantindo uma indicação de Álbum do Ano no Libera Awards da indústria independente. Além do impacto criativo, a obra posicionou a compositora no mesmo patamar de expoentes como Sharon Van Etten e Mitski, simbolizando uma virada estética no ecossistema alternativo que trocou o minimalismo das guitarras por arranjos grandiosos, adornados por camadas sintetizadas e orquestrações cinematográficas. O alinhamento sonoro aproximou ainda mais essa leva de criadoras, gerando parcerias como a colaboração na faixa "Like I Used To", unindo Olsen e Van Etten em 2021. 

 

O disco All Mirrors está disponível no catálogo da Hifive Discos.  

 

Ouça: “Lark”, “All Mirrors”, “Chance”, “Spring” e “Summer” 

 

Para quem gosta de: Lana Del Rey, Kate Bush, Mitski. 

 

Texto por João Gabriel Coelho.